Depois do Pratyahara, Dharana é o sexto estágio do Yoga, no caminho para a autoconsciência. É um dos primeiros estágios da meditação e sua prática constante pode trazer diversos benefícios para o nosso dia a dia.
Considerada um dos primeiros estágios da meditação — dentro dos 8 estágios do Yoga, segundo Patanjali — Dharana é, na realidade, a concentração profunda.
Já aconteceu com você de, sem querer, fixar o olhar em um objeto qualquer e paralisar o pensamento por alguns segundos? Essa é uma sensação muito comum e, de certa forma, muito parecida com o Dharana, mas sem qualquer tipo de controle nem intenção.
A principal diferença é que, no Dharana, a concentração é constante, controlada e alcançada com treino, não um lapso espontâneo de poucos momentos.
Por isso, a prática mais física do Yoga, típica dos estágios que antecedem o Dharana — como os Asanas (posturas) e o Pratyahara (abstração dos sentidos) — são os métodos propostos para alcançar mais facilmente o controle dessa concentração profunda.
Neste artigo, vou explico melhor o que é o Dharana, como ele se encaixa nas demais práticas do Yoga e quais são os benefícios que essa prática pode trazer para você. Vamos lá?
Qual é o significado de Dharana?
Assim como todos os nomes do Yoga, Dharana é uma palavra em sânscrito. Em suas raízes, é um termo que significa reter, segurar ou concentrar, e consiste no sexto estágio do Yoga, segundo Patanjali — uma das cinco gerações de professores envolvidos na estruturação do Yoga, na Índia.
Por isso, Dharana é a manutenção da atenção que conseguimos quando abstraímos nosso corpo e sentidos. Uma concentração profunda que consegue, aos poucos, realmente silenciar os pensamento e a mente.
Segundo a estrutura do Yoga, o praticante se beneficia quando consegue desenvolver melhor os 5 estágios iniciais como uma preparação para o Dharana: Yamas (virtudes), Niyamas (comportamentos), Asanas (posturas físicas), Pranayama (respiração) e Pratyahara (abstração dos sentidos).
A sequência de estágios não é estritamente obrigatória, mas foi pensada como um processo que funciona melhor se desenvolvido de forma gradual. Embora sua definição seja aparentemente simples, não é uma coisa tão fácil acalmar a mente e o corpo e conseguir silenciar os pensamentos sem qualquer preparação.
Assim como a prática dos cinco estágios anteriores à Dharana facilitam o Dharana, trabalhar este estágio do Yoga também é importante para que se possa alcançar os estágios seguintes, Dhyana (meditação) e Samadhi (hiperconsciência) — este último, o grande objetivo da Yoga, para um yogi.
Qual é a proposta de Dharana?
O caminho para autoconsciência proposto pelo Yoga é também um caminho de desenvolvimento do autocontrole, que envolve todas as esferas da vida: desde a vida coletiva, passando pelos aspectos do corpo físico e individual, e chegando aos estágios meditativos de reconexão com o Eu abstrato.
Nesse contexto, Dharana é um estágio que é antecedido imediatamente pelo Pratyahara, a abstração dos sentidos.
No Pratyahara, buscamos meios de controlar voluntariamente tudo aquilo que é captado por nossos cinco sentidos (visão, tato, olfato, paladar e audição), para que a concentração possa começar a se direcionar de fato para o interior, desligando-se do ambiente.
Isso pode ser feito dando preferência para apenas um desses sentidos e direcionando nosso foco para ele. O objetivo do Pratyahara é trazer o praticante de Yoga sistematicamente para o presente.
Quando isso acontece de forma constante e profunda, chega-se ao estágio de Dharana, que é a concentração.
Você já começou a ler um livro muito instigante, de ficção, por exemplo, e sentiu que nada mais existia ao seu redor, senão as palavras e as imagens da narrativa na sua mente, a ponto de perder a hora lendo, sem perceber? Essa sensação é, de certa forma, parecida com o estado de Dharana.
Como praticar Dharana?
Considerando o Yoga como um todo, podemos entender que é possível praticar quase todos os estágios simultaneamente, por exemplo, em uma aula de Yoga que utiliza Asanas.
Quando você se estabelece em uma postura (Asana), deve controlar a respiração (Pranayama) e, para sustentar a postura, precisa abstrair os sentidos (Pratyahara). Ao manter esse estado por algum tempo, você pode alcançar uma concentração profunda, que interrompe os pensamentos e sensações físicas por algum tempo — e este é o Dharana.
Mesmo sem os Asanas, o Dharana também pode ser praticado com a meditação.
Ao colocar a atenção no corpo, na respiração ou até mesmo em um som reproduzido intencionalmente, praticamos inicialmente o Pratyahara. Manter a mente focada em algo até que esse algo “não exista mais” e o espaço mental ocupado por ele torne-se silêncio, é quando chega-se ao estágio de Dharana.
Outra forma de chegar ao Dharana pela meditação é concentrando-se na respiração — e assim você pode ver que não é à toa que o Pranayama é um estágio anterior ao Dharana.
Visualizar a respiração, a inspiração e a expiração, contar o tempo para essas etapas ou simplesmente observar a respiração como um todo, até que essa atenção seja extremamente concentrada, mais uma vez, é quando chegamos ao Dharana.
Como a prática do Dharana se manifesta no cotidiano?
A prática do Dharana traz tranquilidade para a mente, mesmo após a meditação e pode ser feita propositalmente sempre que você se concentra profundamente em algo, ao ponto de sentir que não há mais nada além de você e do objeto no qual você se concentra.
Se pensarmos no cotidiano, o Dharana ajuda nossa mente a também criar memórias de concentração profunda que podem ser evocadas nas atividades mais cotidianas, melhorando nossa concentração no trabalho, nos estudos, tornando nosso sono mais profundo e, principalmente, beneficiando nossas relações interpessoais.
Como o ritmo de vida da maior parte das pessoas hoje é muito acelerado, essa dinâmica acaba dominando também nossa mente e nossas emoções, fazendo das nossas relações pessoais mais superficiais e, por isso, mais conflituosas.
Estar totalmente presente em uma situação familiar ou extremamente concentrado no que diz o outro, numa conversa, são atitudes exercidas pelo Dharana e que melhoram nossos vínculos, trazendo mais satisfação para as relações que já temos e as que desejamos construir.
O artigo sobre Dharana fica por aqui. Nosso próximo passo na jornada do Yoga é o Dhyana, a tão conhecida meditação. Continue por aqui e confira nosso próximo artigo!
Sobre Claudia Faria
Claudia Faria é fundadora do método Yoga Adventure. Pratica Yoga desde os 14 anos, idade em que decidiu se tornar professora, e, aos 19, formou-se na primeira universidade de Yoga do país, Belas Artes e FAINC. Já ministrou cursos, palestras e workshops no Brasil, Estados Unidos, Europa e Argentina, e hoje atua como CEO do Grupo YA. É também escaladora e formada em Medicina Veterinária.







